sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Virtude

 
 A virtude não é veste de gala para se envergada em dias e horas solenes.  Ela deve ser nosso traje habitual.  A virtude precisa fazer parte de nossa vida, como o alimento que ingerimos cotidianamente, como o ar que respiramos a todo instante.

A virtude não é para ostentação:  é para uso comum.  É falsa a virtude que aparece para os de fora, e não se verifica para os familiares.  Quem não é virtuoso dentro do seu lar, não o será na vida pública, embora assim aparente.  Ser delicado e afável na sociedade, deixando de manter esses predicados em família, não é ser virtuoso, mas hipócrita.  A virtude não tem duas faces, uma interna, outra externa:  ela é integral, é perfeita sob todos os aspectos e prismas.  Não há virtude privada e virtude pública:  a virtude é uma e a mesma, em toda parte.

O hábito da virtude, quando real, reflete-se em todos os nossos atos, do mais simples ao mais complexo, como o sangue que circula por todo o corpo.

As conjunturas difíceis, as emergências perigosas, não alteram a virtude quando ela já constitui nosso modo habitual de vida.

A virtude assume as modalidades necessárias para se opor a todos os males, sem prejuízo de sua integridade.  Há um matiz para resolver cada caso, para se opor a cada vício, para vencer cada paixão, para enfrentar cada incidente; mas sempre, no fundo, é a mesma virtude.  Ela é como a luz, que, iluminando, resolve de vez todos os obstáculos e tropeços, franqueando-nos o caminho.  O hábito da virtude é fruto de uma porfiada conquista.  Possuí-la é suave e doce.  Praticá-la é fonte perene de infindos prazeres.  A dificuldade não está no exercício da virtude, mas na oposição que lhe faz o vício, que com ela contrasta.  É necessário destronar um elemento, para que o outro impere.  O vício não cede o lugar sem luta.  A virtude nos diz:  eis-me aqui, recebei-me, dai-me guarida em vosso coração; mas lembrai-vos de que, entre mim e o vício, existe absoluta incompatibilidade.  Não podeis servir a dois senhores.

A verdadeira religião é a da virtude.  Fora da virtude não há salvação.  “Vós sois o sal da Terra”, disse Jesus aos seus discípulos.  Se ele hoje viesse ao mundo reunir seus escolhidos, não se valeria certamente das denominações e títulos dos vários credos religiosos para os distinguir; a virtude seria o sinal inconfundível por onde os descobriria, por mais dispersos e disfarçados que estivessem.

É pela virtude que as almas se irmanam entretecendo entre si liames indissolúveis.  Os homens de virtude entendem-se num momento, ao passo que os séculos não são suficientes para firmar acordo entre aqueles que dela vivem divorciados.

Propaguemos a religião da virtude:  só ela satisfaz o senso da vida, conduzindo o espírito à realização dos seus destinos.
Livro:  Nas Pegadas do Mestre
Autor:  Vinicius (pseudônimo) – Pedro de Camargo
8ª Edição em 1992 – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) –
Páginas:  18 até 19 – Brasília-DF – 1933

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