sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Leproso Samaritano

“De caminho para Jerusalém, Jesus encontrou-se na estrada com dez leprosos, os quais dirigindo-se a ele clamaram em altas vozes:  Jesus, Mestre, tem compaixão de nós.  Jesus, atendendo-os, retrucou:  Ide mostrar-vos aos sacerdotes.  E em caminho ficaram limpos.  Um deles que era samaritano, vendo-se curado, voltou, dando glória a Deus em voz alta, e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe.  Perguntou, então, o Senhor:  Não ficaram limpos os dez?  Onde os outros nove?  Não se achou quem viesse dar glória a Deus, senão este estrangeiro?  E disse ao homem:  Levanta-te e vai; tua fé te salvou.”

Como se explica o fato de a cura destes leprosos ter despertado precisamente no samaritano, tido como herege, um avivamento íntimo que não se produziu nos demais?  Porque não ficaram os nove judeus possuídos do mesmo entusiasmo, do mesmo ardor sagrado, que invadiu o coração do samaritano?  Porque não vieram, como ele, transbordantes de júbilo, render graças ao seu benfeitor?  Não receberam, acaso, o mesmo benefício?  Porque não experimentaram, como era natural, necessidade de se expandirem em demonstrações positivas de gratidão, sentimento este, tão nobre e tão belo?  “Qual a razão desta razão?”  Encontramos a resposta na qualidade da fé alimentada pelos leprosos.  A dos nove judeus era a fé falseada em sua natureza, adstrita aos dogmas e às ordenanças duma igreja sectária.

A fé pura não se amolda às veleidades e aos preconceitos dos homens.  Não se deixa, igualmente, encarcerar entre os acanhados âmbitos dos credos exclusivistas.  Como potência, como força viva que é, requer expansão, requer liberdade.  Só no imensurável ela vive e medra.  Pretender cercear-lhe o curso é rematada insânia.  Não será, jamais, o homem que há de influir sobre a fé:  é a fé que há de influir sobre o homem, renovando-o continuamente.

A fé, como o amor, é livre e irredutível.  Dizei ao rouxinol que não cante; ao Sol que não ilumine, nem aqueça; às chuvas que não fecundem a terra; às ondas do mar que se aquietem e repousem; ao vento que não sussurre; à flor que não exale seus perfumes; talvez sejais obedecidos.  Porém, jamais ordeneis ao coração que não ame, ou que o faça apenas dentro de limites fixados; ele nunca vos obedecerá, porque o coração foi criado para o amor, e o amor é poder, é força inexaurível que se expande no infinito.  Nada embargará seus passos.

Com a fé sucede o mesmo:  ela é filha do amor.  Do amor se originam todas as virtudes.  Encarcerar a fé, nos mesquinhos limites dum credo, é vão tentame:  jamais ela se deixará aprisionar.  A fé é força, e, como tal, é ativa.  Ela transforma e reforma o homem promovendo sua ascensão para estágios sempre mais elevados.  É a fé que desperta os sentimentos, que avigora a vontade, que sustenta a razão, que purifica a mente.  Daí, o dizer de Jesus ao samaritano humilde, em cujo coração verificara a existência da preciosa graça divina:  “A tua fé te salvou.”  Salvou, sim, porque ela fez desabrochar na alma do samaritano o valor, a alegria sã, a gratidão.  Jamais aquele homem se apartaria daquela força sideral; estava com ela, era dele porque ele se lhe havia entregado, sem restrições.  Sua ação, dali em diante, orientar-se-ia por essa luz do céu, que é a fé.  Não seria mais autômato, como os escravos do dogma.  Agiria livremente, ao influxo da mesma liberdade.  Por isso, enquanto os nove sectários demandavam, maquinalmente, o templo e os sacerdotes, para se desobrigarem dum preceito ritualístico, o samaritano recebia o aplauso valioso do Divino Mestre, que se comprazia em o louvor.

Diante da lição eloqüente deste soberbo episódio, cumpre imitarmos o leproso samaritano.  Cultivemos, portanto, a fé, e não uma fé.  Identifiquemo-nos com a religião, e não com uma religião.  Pertençamos à Igreja, e não a uma igreja.  Seja o nosso culto, o da verdade, o da justiça, o do amor.

É tal o que Jesus ensina e exemplifica em seu santo Evangelho.

Livro:  Nas Pegadas do Mestre
Autor:  Vinicius (pseudônimo) – Pedro de Camargo
8ª Edição em 1992 – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) –
Páginas:  49 até 51 – Brasília-DF – 1933

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