sábado, 2 de fevereiro de 2013

Os Verdadeiros Cristãos

“Disse, então, Jesus, aos judeus que nele creram:  Se vós permanecerdes nas minhas palavras, verdadeiramente sereis meus discípulos...”

Há crer e crer.  Os demônios criam:  criam, mas não praticavam, criam mas não se convertiam.  O templo cristão é uma escola.  Aquele que se limita a admirar-lhe a fachada, contornando-o ou permanecendo no vestíbulo, não sabe o que é essa escola; ignora e ignorará tudo o que ali é ensinado.

O Cristianismo é uma doutrina que precisa de ser apreendida e de ser sentida.  Estuda-se sua ética mais com o coração que com a inteligência.  Aquele que não sente em si mesmo a influência da moral cristã, desconhece o que ela é, embora tenha perfeito conhecimento teórico de todos os seus preceitos e postulados.  O coração registra emoções:  nossos atos, nossa conduta gera as emoções.  O Cristianismo é a verdadeira doutrina positiva, visto como é a doutrina da prova e da experiência pessoal.

Ninguém saberá o que significa – amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos fazem mal -, enquanto não escoimar seu interior de toda a odiosidade, de todo o sentimento de rancor.  “Bem aventurados os que choram, porque eles serão consolados”:  - Quem pode saber o valor desta beatitude senão aquele cujas lágrimas de arrependimento ou de dor o conduziram aos pés da cruz?  “Vinde a mim, vós todos, que vos aliviarei.”  Estas palavras não têm sentido para os epicuristas, para os felizes do século, para os ricos e para os poderosos da Terra.  Mas os pobres, os pequeninos, os sofredores sabem perfeitamente, por experiência, o quanto elas valem e o que significam.  “Aquele que não abre mão de tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo.”  Semelhante expressão é loucura para o onzenário, para o banqueiro, para o homem de negócio, para todos os argentários do mundo.  Porém, é um programa para quem já descobriu outra espécie de riqueza:  a que “o ladrão não rouba e a traça não rói.”

“Recebi o Espírito Santo”, - que juízo poderão fazer desta dádiva os que ainda não a receberam?  Definirão o caso de mil formas, jamais, porém, conhecerão do fenômeno enquanto não o experimentarem em si mesmos.  Teólogos eminentes, ilustrados e eruditos, têm escrito coisas sem nexo quando se reportam ao assunto.  Porquê?  Porque do caso conhecem pela mente, mas o ignoram de coração.  Daí o dizer de Paulo:  “Só o homem espiritual entende o que é espiritual.”

Jesus não foi teólogo, nem sacerdote.  A Teologia, tal como ensinam as religiões, tem confundido muitos crentes, tem dividido e subdividido o rebanho do Cristo, sem jamais levar consolo a um só coração.

Na fé de Jesus Cristo não há confusão.  Sua túnica era inconsútil:  uma só peça.  Sua doutrina é integral; e só podemos conhecê-la seguindo as pegadas do Senhor, que é a sua personificação.  Jesus é um mestre cuja escola é ele mesmo.  Por isso, deixou de escrever, não legou livro algum à Humanidade, que veio remir.  O Cristianismo não se reduz a teorias:  é luz, é verdade, é vida.

O homem é conversível.  Jesus veio promover sua conversão anunciando o Evangelho antes que existisse qualquer livro ou manuscrito com essa designação.  O Evangelho é uma mensagem convidando os homens para o reino de Deus.  Para alcançá-lo, porém, é mister uma condição:  converter-se.  Converter significa mudar de vida, deixar o caminho velho, e tomar rota nova, pois o homem tem vivido no reino da carne, da mentira e do egoísmo; e o reino de Deus é precisamente o oposto, isto é, o reino do espírito, da verdade e do amor.

Cristãos verdadeiros, portanto, são somente aqueles que se reformam continuadamente.  Este é o cunho que os distingue dos falsos crentes, dos cristãos de fancaria e de rotulagem.

Livro:  Nas Pegadas do Mestre
Autor:  Vinicius (pseudônimo) – Pedro de Camargo
8ª Edição em 1992 – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) –
Páginas:  41 até 43 – Brasília-DF – 1933

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