sábado, 16 de março de 2013

Porque malsinar o mundo?


 

“De tal sorte amou Deus o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que todo nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna.”  (Evangelho)

É costume vituperar-se o mundo, cobri-lo de vilepêndios e doestos, atribuindo-lhe a origem de todos os males que nos afetam.  Tal vezo, aliás comuníssimo mesmo entre os adeptos do Espiritismo, deve ser abolido.

O mundo não é responsável pelas nossas vicissitudes.  O mal não vem dele, nem da vida terrena.  A lágrima que nos sulca o rosto; os vincos que nos assinalam as faces; a mágoa que nos confrange; a dor, em suma, sob seus aspectos multiformes, são o efeito duma causa que está em nós mesmos, e não no planeta que habitamos.  É do nosso interior que vêm os maus pensamentos, o adultério, a cobiça, a avareza, a impudicícia, o ódio, o egoísmo.  Tal a causa verdadeira dos sofrimentos e flagelos que assediam a Humanidade.

A Terra não é presídio, não é cárcere, não é degredo, não é vale de lágrimas.  A Terra, disse o Mestre em admiráveis parábolas, é uma granja, uma quinta ou vinha para onde o Senhor envia trabalhadores.

A Terra é o campo de ação onde nosso espírito vem exercer sua atividade.  Como o lavrador mete a relha no solo duro e árido, transformando-o em seara fecunda, assim cumpre a cada um de nós exercitar os poderes latentes da alma na conquista do saber e da virtude, rumando para alcandorados destinos.

Não há castigo, não há punição, não há penalidade a cumprir.  Há problemas a resolver, há obstáculos a remover, há contingências e conjunturas mais ou menos penosas a conjurar.  Tudo isto, porém, como consequência do estado particular em que se encontram nossos espíritos, cujas energias são assim despertadas.  A indefectível justiça divina não admite vítimas.  A cada um é dado segundo as suas obras.

E não se objete que tanto importa considerar a origem do mal como sendo do homem ou sendo do mundo, uma vez que o mal impera neste meio onde nos achamos.  Importa muito.  De premissas falsas, falsas conclusões.  Se o mal fosse do mundo, não teríamos que pensar noutra coisa senão em sair do mundo.  Mas, se o mal está em nós mesmos, cumpre tratarmos de nossa conservação.  Nada vale ao pestoso mudar de habitação:  levará a peste consigo.  Ele precisa tratar-se, curar-se da enfermidade que o flagela.

Deixemos, pois, de malsinar o mundo, que é obra de Deus, e que faz jus a seu amor.  Para este mundo, tão injustamente infamado, Deus mandou seu filho unigênito, não para o condenar, mas para o redimir.

Tratemos, portanto, de reformar o mundo, reformando-nos a nós próprios.  É e será aqui, por tempo indefinido, o nosso teatro de ação.  Não nos iludamos esperando a mansão dos justos, quando ainda estamos cheios de iniquidades; esperando a região dos puros, quando ainda estamos cheios de impureza; esperando os tabernáculos eternos, quando ainda não vencemos a carne.

Nascer, morrer, renascer ainda, progredindo sempre:  tal é a lei.  Melhorar o mundo, melhorando a nós mesmos:  tal é a vontade do Senhor.

Livro:  Nas Pegadas do Mestre
Autor:  Vinicius (pseudônimo) – Pedro de Camargo
8ª Edição em 1992 – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) –
Páginas:  78 até 79 – Brasília-DF – 1933

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