quinta-feira, 28 de março de 2013

Últimos que serão Primeiros


O valor de nossos feitos não está nas proporções vultosas desses feitos. Deus não olha para o volume, nem para a quantidade, mas para a qualidade.  Ele não quer o muito, quer o bom, quer o melhor.  É preferível, pois, o pouco bom, ao muito regular.
Nossas obras devem ser feitas com alegria e singeleza de coração, sem tédio nem cansaço, sem intenção reservada.  A virtude exclui cálculos de qualquer espécie.  Todo o bem que fazemos importa no cumprimento dum dever contraído.  “Fazei tudo que puderdes e dizei depois:  somos servos inúteis, fizemos somente o que devíamos” – tal é a palavra do Evangelho.
É um erro exaurirmo-nos numa labuta febril e penosa, com o propósito de nos tornarmos mais merecedores aos olhos de Deus:  “Misericórdia quero e não sacrifícios.”
A vida, mesmo considerada sob o aspecto da existência terrena, é um dom precioso e como tal deve ser vivida.  Destruir-lhe o encanto natural; reduzi-la a uma série de atos forçados; transformá-la, enfim, num fardo que se arrasta penosamente, não é virtude, é delito.
Os reclusos do claustro, furtando-se ao convívio social, incompatibilizando-se com a natureza em todas as suas manifestações, longe de ser aproximarem do céu, como pretendem, distanciam-se dele; porque todo o móvel de seus atos se funda num requintado egoísmo.  O reino dos Céus é daqueles que se tornam como as crianças, diz o Mestre.  Onde a simplicidade e a inocência da criança, nessa atitude estudada, nessa vida egoística, cujo único fito se resume na conquista duma grande recompensa.
A verdadeira virtude é aquela que a si mesma se ignora.  Os humildes jamais se julgam seres privilegiados.  “Bem aventurados os simples de espírito, porque deles é o reino dos Céus” – reza o Sermão da Montanha.  Bem aventurados aqueles que fazem o bem e não se lembram de que o fizeram.  A recompensa é sempre grande para os que nela não pensam, e é sempre mesquinha para os que a têm como móvel de seus atos.
Agir por amor, sem aflições, sem ânimo excitado, fruindo desse mesmo amor um doce e suave prazer – eis o ideal da vida.  Os que assim procedem são felizes.  Nunca se queixam de ingratidões, nem de cansaço.  O tédio e o mau humor jamais os atingirão.  Vivem com alegria de viver:  não se esgotam, nem se consomem.  Suas energias, tanto físicas como espirituais, são sempre renovadas, mantendo o equilíbrio geral.
Ao homem não compete fazer ajustes com Deus:  cumpre-lhe amá-lo e obedecer-lhe.  Aqueles que prometem fazer isto ou aquilo, sob a condição de lhes ser concedida determinada mercê, desconhecem por completo o caráter da Divindade.  Pretendem fixar a paga, estabelecer o galardão.  Insensatos!  Deixai a Deus dar-vos o que bem entender, pois será sempre mais e melhor do que aquilo que concebeis em vosso egoísmo.
Não convém pedirmos a extensão dos nossos méritos:  a Deus pertence esse mister.  Ninguém é bom juiz em causa própria.  Trabalhemos com simplicidade, com alegria:  Deus nos dará o que for justo.
Não convém, tão pouco, correr com o fito de ganhar dianteira, porque muitos últimos serão primeiros, e muitos primeiros serão derradeiros.
Eis o que nos ensina Jesus através da Parábola dos trabalhadores da undécima hora, inserta no Evangelho segundo Mateus, capítulo vinte.

Livro:  Nas Pegadas do Mestre
Autor:  Vinicius (pseudônimo) – Pedro de Camargo
8ª Edição em 1992 – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) –
Páginas:  112 até 113 – Brasília-DF – 1933

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