sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Evangelho e a Interpretação Espírita–4ª Parte

Ensina Jesus: Batei, e abrir-se-vos-á (Para que a porta abra, é necessário que se tenha o trabalho de bater. A porta não se abre sem esforço pessoal. Logo, um ato está condicionado ao outro).

Recomenda Jesus: Pedi, e dar-se-vos-á (Jesus afirma, com isto, o valor da prece, mas é necessário que saibamos pedir. A prece pode ser inútil, desde que o sentimento não seja honesto).

Ensina a Doutrina Espírita: O trabalho constitui uma necessidade. (O Livro dos Espíritos – questão nº 674). Tem-se, aí, a moral do trabalho, ensinada por Jesus.

Diz a Doutrina Espírita: O essencial não é orar muito, mas orar bem. (O Livro dos Espíritos, questão nº 660). Orar bem é orar com justiça, com sinceridade, não querer absurdo por meio da prece. Este preceito exprime o mesmo sentido da sentença de Jesus, apenas por outras palavras.

As duas passagens sugerem, ainda, alguns comentários, especialmente porque nelas se verifica a simultaneidade dos propósitos, tanto de uma parte como da outra: a lição do Evangelho e a Doutrina Espírita ressaltam, ao mesmo tempo, a qualidade da prece. O Espiritismo tem elementos positivos para demonstrar a eficácia da prece. Convém notar, entretanto, que até nisto Jesus estabeleceu uma condição: Mas, quando orardes, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai-lha, para que o vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas falhas. (Não tomemos as frases ao pé da letra, tanto mais quanto as traduções estão muito sujeitas a alterações de forma; procuremos, pois, o pensamento essencial). O sentido desta recomendação evangélica, sejam quais forem as traduções, não é outro, senão este: se queremos ser beneficiados pela prece, que é o mais poderoso recurso da alma humana, sejamos sinceros, humilhemo-nos, esqueçamos as ofensas e, assim, purificando os nossos sentimentos, estaremos em condições de “orar bem”, como ensina a Doutrina Espírita em concordância com o Evangelho. Antes de pedirmos ou querermos que as nossas súplicas sejam atendidas (nem sempre são justas), devemos fazer um exame de consciência para que nos possamos colocar espiritualmente no plano do merecimento.

Que vem a ser tudo isto, senão esforço íntimo, luta interior, desejo de ascensão espiritual? É trabalho, portanto. Quanto o homem luta consigo mesmo para se melhorar, está trabalhando. Vejamos a questão nº 675, de O Livro dos Espíritos: “Por trabalho só se devem entender as ocupações materiais?” “Não; o Espírito trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação útil é trabalho.” O conceito de trabalho é o mais elástico possível. As promessas do Evangelho, e são promessas consoladoras, não nos eximem do trabalho, não nos dispensam da reforma moral. Coincidindo absolutamente com o Evangelho, os pontos fundamentais da Codificação de Allan Kardec falam a mesma ênfase, com o mesmo vigor, sobre a significação do trabalho como fator primacial no processo do espírito. Podemos inferir, sensatamente, que as respostas do Alto não nos vem como graças ou privilégios, mas na medida de nosso esforço, de nosso trabalho, de nosso merecimento perante a Justiça Divina. Prometer paraísos ou anunciar a felicidade suprema sem fazer sentir a necessidade essencial da reforma própria como base de todas as conquistas espirituais, é mistificar em nome do Evangelho, é desvirtuar o verdadeiro espírito da palavra de Jesus. Não é possível, pois, interpretar o Evangelho à luz do Espiritismo pelas mesmas regras com que o interpretam os crentes ortodoxos. Não. O Evangelho, interpretado à luz do Espiritismo, longe de nos levar à beatitude e à vida “puramente contemplativa”, exige ação, estudo, transformação interior. Seria também contraproducente, para o meio espírita, imitar o sistema de interpretação das igrejas cristãs, o que equivaleria a pôr a doutrina de lado e reproduzir os textos evangélicos sem as luzes da filosofia, sem os elementos de elucidação que a Doutrina Espírita fornece à inteligência.

Autor (a): Deolindo Amorim

Livro: O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas

Edição: 3ª – Editora: CELD – Cap.: II – Páginas: 59-61 – 4ª Parte – Rio de Janeiro – 1988.

Revista Cultura Espírita – Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB) – Ano: IV – nº 45 – página: 09 – Dezembro/2012.

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