domingo, 15 de setembro de 2013

Bom Médium

Encontraremos na narrativa de O Evangelho Segundo Lucas o encontro entre Jesus e um homem rico, de destacada posição social na comunidade judaica. Em clara demonstração de referência e admiração, o insigne judeu Lhe perguntou: Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna? Ao que Jesus replicou: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão só Deus!

Numa análise superficial, não encontraríamos justificativa para que o Mestre contestasse o título “bom”, haja vista que – de fato – Ele o era, e que se tratava de uma saudação amistosa e reverente. Além disso, diferente de muitas outras autoridades que buscaram Jesus para confrontá-lo, aquele nobre hebreu desejava, sinceramente, aprender com o Raboni de Deus.

Por essas palavras, Jesus não anelava descartar aquele homem rico e bem posicionado, como encontraremos explanado na magistral interpretação de Allan Kardec acerca da salvação dos ricos, contida em O Evangelho Segundo o Espiritismo, muito ao contrário, desejava tê-lo entre Seus discípulos.

Nada obstante, Jesus nunca desaproveitava as oportunidades para moralizar e desenvolver inteligências, ensinando a pensar, e, por conseguinte, ensinando a melhor maneira de bem viver.

O respeito e a deferência são valores muito nobres, e devem ser aplicados não somente no tratamento para com aqueles em posição superior, mas também aos compares e subalternos, indiscriminadamente. Contudo, poder-se-ia interpretar a postura de Jesus como uma advertência, para que fugíssemos da prática do enaltecimento exagerado, e da adulação visando à obtenção de favores e privilégios indevidos.

A sabedoria das lições do Mestre Amorável são de pragmatismo ímpar, posto que a aplicabilidade de Sua doutrina logra bom êxito prático em todas as situações da vida, e em qualquer época histórica, mormente nos dias atuais, quando – a propósito dos ensinos apreendidos dessa passagem evangélica – poder-se-ia estender a preciosíssima instrução do Nazareno até um dos maiores escolhidos da prática mediúnica: a interferência dos espíritos imperfeitos nas comunicações espirituais.

Assédio persistente de um espírito sobre o outro, a obsessão se afigura como o mais grave drama que pode assolar a tarefa mediúnica, e nem mesmo os médiuns mais dignos e moralizados estão livres da ação dos espíritos levianos e pseudossábios. Além do mais, também assevera Allan Kardec que As boas intenções, a própria moralidade do médium nem sempre são suficientes para o preservarem da ingerência dos espíritos levianos, mentirosos ou pseudossábios, nas comunicações. Além dos defeitos de seu próprio espírito, pode dar-lhes guarida por outras causas, das quais a principal é a fraqueza de caráter e uma confiança excessiva na invariável superioridade dos espíritos que com ele se comunicam.

É possível reconhecer o médium sob má influência pelos seguintes caracteres, entre outros: confiança do médium nos elogios que lhe fazem os Espíritos que com ele se comunicam; disposição para afastar-se das pessoas que podem lhe dar úteis conselhos; levar a mal a crítica, a propósito das comunicações que recebe. Dessa maneira, faz-se compreensível o efeito deletério que produz a aceitação da lisonja pelos medianeiros, sob qualquer pretexto.

Para preventivo contra essa intervenção nociva, nunca será demasiado recordar a elucidação proporcionada pelo Codificador, poderosamente capaz de mudar o ponto de vista do médium no que diz respeito à própria condição de falibilidade: Os Espíritos bons aprovam aquilo que acham bom, mas não fazem elogios exagerados. Estes, como tudo que denota lisonja, são sinais de inferioridade da parte dos Espíritos.

Além do mais, o fiel apóstolo lionês de O Espírito de Verdade explica que (...) até os melhores médiuns também são iludidos pelos espíritos inferiores com assiduidade, e que o melhor médium é aquele que, simpatizando somente com bons Espíritos, tem sido enganado menos frequentemente. Portanto, pode-se ser enganado pelos espíritos sem estar obsidiado, assim como qualquer homem honestíssimo também pode ser enganado por encarnados vigaristas. Trata-se de grave advertência do mestre Rivail/Kardec.

A conclusão racional para os inolvidáveis ensinamentos de Jesus – e de Seu mais excelente intérprete, Allan Kardec – é que todo médium deve repelir impiedosamente os elogios de todos os espíritos, ainda que se lhe apresentem como instrutores ou guias, especialmente se estiverem pregando ser dispensável o estudo metódico e continuado de todas as obras kardecianas. São sempre espíritos levianos e pseudossábios, que tendem a se impor aos homens cercando-os de lisonja e assistência, para conquistar-lhes a amizade e a confiança. O despistamento é o ato de iludir a vigilância dos médiuns, afastando suspeições.

Declinemos, pois, da adulação e da blandície indevida, traiçoeiros véus capazes de obnubilar a visão de nossa real pequenez e de levar-nos aos abismos da perturbação e do erro, jamais esquecendo que, verdadeiramente, ninguém é bom, senão só Deus.

Autor(a): Fabiano Pereira Nunes

Revista Cultura Espírita – Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB)

Ano IV – Edição nº 41 – Página: 15 – Agosto/2012.

Livros Pesquisados:

Bíblia, N. T. Lucas – Português – Bíblia de Jerusalém – Nova edição revisada e ampliada – São Paulo: Paulus, 2002 – 3ª impressão, 2004 Capítulo: 18, Versículos: 18-19, Página: 1.821.

KARDEC, Allan – O Evangelho Segundo o Espiritismo – Tradução de Guillon Ribeiro – 102ª Edição – Cap. XVI “Não se pode servir a Deus e Mamon” – Federação Espírita Brasileira (FEB) – Rio de Janeiro – 1990.

KARDEC, Allan – O Livro dos Médiuns – Tradução de Maria Lúcia Alcântara de Carvalho – 1ª Edição – Editora CELD - Segunda Parte, Capítulo XXIII, “Da Obsessão”, Itens: 237, 238 e 243 Páginas: 283, 284 e 287 - Rio de Janeiro – 2010.

KARDEC, Allan – O que é o Espiritismo – Tradução de Albertina Escudeiro Seco – 3ª Edição – Editora CELD – Capítulo II, “Qualidade dos Médiuns”, Item: 82, Página: 178 – Rio de Janeiro – 2010.

KARDEC, Allan – “Escolhos dos Médiuns” – Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos – Tradução de Evandro Noleto Bezerra – Ano II – Página: 55, Fevereiro/1859 – 3ª Edição 2ª Reimpressão – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) – Rio de Janeiro – 2009.

KARDEC, Allan – “Aforismas Espíritas e Pensamentos Avulsos” – Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos – Tradução de Evandro Noleto Bezerra– Ano II – Páginas: 534 e 535 – Dezembro/1859 - – 3ª Edição 2ª Reimpressão – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) – Rio de Janeiro – 2009.

KARDEC, Allan – O Livro dos Médiuns – Tradução de Maria Lúcia Alcântara de Carvalho – 1ª Edição – Editora CELD – Segunda Parte, Capítulo XX, “Influência Moral do Médium”, Item: 226, Perguntas: 9 e 10, Página: 264 – Rio de Janeiro – 2010.

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