terça-feira, 8 de outubro de 2013

O Verbo Amar

Jesus, dias antes do seu sacrifício, disse aos discípulos: “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei.”

Onde a novidade de tal mandamento? Porventura o Evangelho não é, em síntese, a apologia do amor? Que outro preceito mereceu jamais tanta recomendação e referências tão enfáticas por parte do Mestre? Não obstante, aquela ordenança encerra notável novidade: o modo de amar. Jesus, não só prescreveu o amor, mas também a maneira de amar, dizendo: Amai-vos como eu vos amei.

Amar, todos os seres amam. A vida, sob qualquer forma, debaixo de qualquer aspecto que se nos apresente, é sempre expressão de amor. Amar é a grande lei da Natureza. O amor é atributo inseparável da vida; à medida que ela evolve para planos mais elevados, o amor transcende, assumindo modalidades várias. Daí os diversos modos de amar.

O verbo amar tem muitos paradigmas. A fera ama. A leoa defende com solicitude seus cachorrinhos, e por eles se bate até à morte. A galinha, expondo-se aos rigores do tempo, acolhe sob as protetoras asas os seus pintainhos. Cuida com desvelo de lhes arranjar alimentos, priva-se daqueles que lhe são mais apetitosos, reservando-os para eles. Tudo isto que é senão manifestações de amor?

Mas, a leoa não cura dos cachorrinhos de outra leoa como cura dos seus. A galinha se arrepia e ameaça os pintainhos de outras ninhada quando estes invadem a zona onde ela e os seus estão ciscando. É que os animais inferiores amam com egoísmo. Neles o amor não brilha em sua pureza. O diamante ainda está em estado de carvão. O instinto de conservação próprio e da prole, raiz do egoísmo, predomina fortemente. No homem se verificam os vestígios daquele instinto. Alguns há que os possuem acentuadamente, quase como o animal. Para esses o verbo amar é intransitivo: sua ação não vai além, concentra-se neles mesmos e nos membros mais chegados da família. É uma forma de idolatria.

Outros há, para os quais o verbo amar é defectivo: faltam-lhe certos tempos, números e pessoas. Amam para corresponder às simpatias ou mesmo obedecendo a motivos mais ou menos interesseiros.
Para outros ainda, o verbo amar é passivo. Amam platonicamente, com frieza, sem demonstrações positivas ou práticas. Abstraem-se do mal, mas não realizam o bem como fruto do amor.

Todos esses são paradigmas transitórios que culminarão um dia no paradigma por excelência, o único compatível com a natureza do verbo amar: Jesus Cristo.

Precisamos aprender com ele a conjugação daquele verbo:”Quando eu for levantado no madeiro, então atrairei todos a mim”. Jesus amou incondicionalmente. Amou sem ser amado, nem correspondido no amor. Amou a amigos e inimigos, a bons e maus, a justos e pecadores, testemunhando com isso sua divina filiação. “Tendes ouvido o que foi dito aos antigos: Amarás teu próximo e aborrecerás teus inimigos? Eu, porém, vos digo: Amei a vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos de vosso Pai que está nos Céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuvas sobre justos e injustos. Se amardes os que vos amam, que fazeis de especial? Não fazem os publicanos também o mesmo? Se saudardes os vossos irmãos somente, que fazeis de mais? Não fazem os gentios o mesmo? Sede vós, pois, perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito.”

A perfeição, portanto, vem da conjugação do verbo amar, segundo o paradigma acima exposto. Ninguém é filho de Deus enquanto não amar indistintamente. Os filhos são herdeiros dos pais. Deus é amor. O verbo amar é eminentemente transitivo e essencialmente ativo. É um verbo cuja ação incoercível não conhece limites em suas expansões. Os verbos são a alma da linguagem, e o verbo amar é mais do que isso, porque é o espírito, é a vida da Religião. A Fé sem amor, é morta, não regenera, não aperfeiçoa, não salva. Jesus Cristo é o verbo amar que tomou forma, que se fez carne. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: Em vos amardes mutuamente como eu vos amei.” Em tal importa o verdadeiro sinal que distingue o cristão.

Amai e fazei depois tudo o que vos aprouver – disse Santo Agostinho. O amor sobrepuja a fé, a esperança, a beneficência, o profetismo e o sacrifício – preceitua o Apostolo dos Gentios. No amor se contém a lei e os profetas – rezam os Evangelhos. Fora do amor não há salvação – sentencia o Espiritismo.

Livro: Nas Pegadas do Mestre
Autor: Vinicius (pseudônimo) – Pedro de Camargo
8ª Edição em 1992 – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) –
Páginas: 174 até 176 – Brasília-DF – 1933

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