terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Marta e Maria

Quando iam de caminho, entrou Jesus em uma aldeia; e uma mulher chamada Marta hospedou-o. Esta tinha uma irmã, Maria, a qual, sentada aos pés do Mestre, ouvia o seu ensino. Marta, porém, muito preocupada com várias ocupações, aproximando-se disse: Senhor, não se te dá que minha irmã me deixe só a trabalhar? Manda-lhe, pois, que me ajude. Retrucou o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e te ocupas com muitas coisas; entretanto, poucas são necessárias, ou antes, uma só; Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada.” (Evangelho)

As palavras do Senhor não encerram propriamente censura ao proceder de Marta. Ele manifestou-se a respeito do caráter das duas irmãs; e isso mesmo provocado pela própria Marta.

Ambas eram boas e tementes a Deus; entretanto, havia entre uma e outra um cunho particular que as distinguia; e o Mestre, mui judiciosamente, soube apreciá-lo. Marta era sensata, laboriosa, ponderada; agia sempre com método e cálculo, de maneira que, em todos os seus atos, podia-se descobrir o predomínio de uma razão amadurecida. Maria possuía um espírito apaixonado, descuidada talvez das coisas práticas, entusiasta pela espiritualidade: era uma idealista que se deixava levar pelo coração.

Marta era um exemplar de mulher impecável, aos olhos do mundo; enquanto que Maria, sua irmã, não faria jus à mesma apreciação, em virtude do acentuado cunho de idealismo que a dominava.

Ainda neste particular, como em outros muitos, o juízo do Mestre contrasta com o dos homens. Assim é que o vemos dizer abertamente: Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada.

Para o mundo, a boa parte é o utilitarismo, enquanto que para Jesus é o idealismo. Marta atendia às coisas da Terra, embora não descurasse as do Céu; Maria identificava-se com estas a ponto de olvidar aquelas. Marta era um perfeito tipo de mulher. Sua irmã ai além; transpunha, ainda que inconscientemente, os limites que separam o humano do divino, o terreno do celestial.

Na balança da justiça da Terra, Marta pesa mais que Maria; na da justiça do Céu, Maria pesa mais que Marta.

O mundo vê no idealismo um desequilíbrio, no idealista um semi-doido. Não obstante, Jesus manifesta-se positivamente por Maria, dizendo que ela escolhera a boa parte.

Os homens do século vivem aflitos e afadigados com mil preocupações, que os enervam, quando, em verdade, como assevera o Mestre, poucas coisas são necessárias. As inúmeras necessidades que fazem o flagelo da maioria dos homens são fictícias, puros caprichos criados pelas paixões desenfreadas, pelos vícios e taras mórbidas, que se adquirem por imitação e se alimentam por egoísmo.

A necessidade real é, rigorosamente, uma só: envolver, caminhar na senda da perfeição, que é o senso da vida. “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”.

Em tal importa a boa parte. Felizes os que a escolheram, pois não lhes será tirada, isto é, poderão transportá-la além do túmulo. É um sonho? É uma ilusão? Que importa? Há sonhos que se transformam em realidades, e há realidades que se transformam em sonhos. Os bens e os prazeres mundanos são realidades do momento, que se tornarão em pesadelos no futuro. A revelação do Céu, essa água viva que Maria sorvia embevecida aos pés do Senhor, será quimera e loucura para as gentes, mas que se há de tornar em realidade no próximo porvir que nos espera.

Livro: Nas Pegadas do Mestre
Autor: Vinicius (pseudônimo) – Pedro de Camargo
8ª Edição em 1992 – Editora Federação Espírita Brasileira (FEB) –
Páginas: 247 até 248 – Brasília-DF – 1933

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